O NAVIO ATRACOU NO CAMAROTE?

O anúncio de um show do BaianaSystem com Lazzo Matumbi dentro do Camarote Salvador provocou mais do que surpresa: gerou ruído. E não é ruído de grave bem regulado — é ruído político. Em um carnaval marcado pela disputa entre rua e mercado, a escolha de um dos espaços mais caros e elitizados da festa acendeu o alerta entre fãs e observadores atentos à trajetória do grupo.

O BaianaSystem sempre cantou que “a rua é o lado de fora” — e não como metáfora vazia. A rua, em sua obra, é território de conflito, de encontro e de invenção coletiva. O Navio Pirata, símbolo máximo desse projeto, nasceu justamente como contraponto à lógica das cordas, dos abadás e dos camarotes que separam quem pode e quem não pode viver o carnaval. Um sistema contra outro sistema.

Por isso, quando o Navio atraca num espaço onde o acesso custa centenas — às vezes milhares — de reais, a pergunta é inevitável: duas cidades pra quem?

É claro: ninguém aqui defende a romantização da precariedade. Artistas vivem de trabalho, e o capitalismo cultural não dá trégua. Mas o BaianaSystem nunca se colocou como neutro. Seu discurso sempre foi explícito, direto, quase pedagógico: denunciar a mercantilização da cultura, reivindicar o direito à cidade, afirmar que “não é só entretenimento”. Quando o discurso é esse, cada escolha vira mensagem.

A mídia, previsível, trata o episódio como “encontro histórico”, neutralizando o debate e transformando contradição em espetáculo. Mas o capitalismo faz isso com maestria: absorve a crítica, vende como experiência premium e chama de diversidade.

Alguns dirão que ocupar o camarote é estratégia, infiltração. Pode ser. Mas infiltrar exige tensão visível, ruído assumido, deslocamento real. Sem isso, o risco é outro: o sistema não é abalado — é reforçado. E a crítica vira trilha sonora de um espaço que sempre esteve fechado.

O incômodo nas redes não nasce de cancelamento, mas de pertencimento. O público cobra porque reconhece no BaianaSystem mais do que uma banda: um projeto político-cultural que sempre prometeu jogar o jogo “do lado de fora”.

Talvez o debate mais honesto não seja se o BaianaSystem “pode” ou “não pode” tocar em um camarote, mas o que esse movimento revela sobre os limites entre arte, mercado, mídia e coerência política.

O carnaval de Salvador, afinal, é o maior laboratório dessas contradições: festa popular capturada pelo lucro, ancestralidade remixada em produto, resistência dançando com o capital.

O Navio Pirata segue potente. Mas até as embarcações mais rebeldes precisam decidir com cuidado em quais portos atracam — e a que preço simbólico.

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