- Ẹ̀KỌ́ ANCESTRAL
Quando o que é chamado de “pinóia” sustenta o mundo: pintura, ancestralidade e memória em Daniel Barreto
- Alice Rodrigues
Há palavras que atravessam gerações porque não se deixam domesticar pela formalidade. Elas sobrevivem na boca do povo, no riso, no gesto cotidiano. “Pinóia” é uma delas. Usada para relativizar o supérfluo, a palavra ganha outro peso quando deslocada para o campo da arte: deixa de ser desdém e passa a ser filtro. É sob essa chave que a nova exposição de Daniel Barreto se apresenta em Salvador.
Ao longo de mais de três décadas acompanhando exposições, movimentos e modismos, aprendi que a pintura só se sustenta quando carrega algo além da superfície. Barreto entende isso com precisão. Sua obra não trata a pintura como fim, mas como campo aberto, capaz de absorver matéria, memória e gesto. O que se vê não é uma tentativa de atualização estética vazia, mas um compromisso silencioso com o tempo — esse elemento cada vez mais raro na arte contemporânea.
Há um dado fundamental em sua produção: o respeito ao trabalho manual. Costura, bordado, montagem e pintura coexistem sem hierarquia. Isso não é escolha casual. Em um país que historicamente desprezou saberes vinculados ao corpo e às mãos — sobretudo quando associados a sujeitos negros e populares — insistir no fazer artesanal é um posicionamento. Cada obra carrega o ritmo de quem sabe que criar também é permanecer.
As figuras que emergem desse processo escapam da ideia de personagem ilustrativo. Elas parecem ter sido chamadas à existência por uma memória que não é apenas individual. São corpos simbólicos, atravessados por infância, cuidado e transmissão. A convivência cotidiana do artista com o universo infantil não infantiliza a obra; ao contrário, devolve à arte algo que ela perdeu ao longo do caminho: curiosidade e franqueza.
O repertório visual que atravessa a exposição dialoga com práticas coletivas de celebração, fé e deslocamento. Não se trata de folclore estetizado, mas de estruturas simbólicas que sustentaram comunidades inteiras ao longo do tempo. Bandeiras, estandartes e objetos que remetem à devoção popular surgem como vestígios de uma cultura que nunca separou arte, rito e vida.
Daniel Barreto, enquanto artista afro-diaspórico, não anuncia essa condição como slogan. Ela está inscrita na escolha dos materiais, no modo de construir imagens, na recusa à pressa e na defesa do pertencimento como valor estético. Sua pintura não pede autorização ao circuito; ela se afirma pela coerência do percurso.
Apresentada em Salvador, cidade onde a memória se move pela oralidade e pelo corpo, a exposição encontra um território capaz de escutar o que a obra propõe. Em tempos de excessos, a mostra lembra que nem tudo precisa brilhar para ser essencial. O que realmente sustenta a arte — e a vida — raramente é o que faz mais barulho.
SERVIÇO
Exposição: Pinóia – Daniel Barreto
Abertura: 14 de janeiro
Horário: 18h
Local: Teatro Gregório de Mattos – Salvador
Compartilhe este artigo
Recentes
Mais Colunas



O NAVIO ATRACOU NO CAMAROTE?



MALCOLM RAMSÉS: A FORÇA DA ANCESTRALIDADE QUE FAZ ECOAR O TAMBORES DA BAHIA






