Crianças de Mão em Mão e o silêncio que atravessa gerações
Há histórias que não começam com certidões de nascimento, mas com silêncios. Histórias que atravessam anos escondidas entre conversas de família, segredos guardados entre mulheres e decisões tomadas em momentos de desespero.
Em mais um caso real que parece roteiro de filme, um menino nasceu e, ainda bebê, foi entregue pela própria mãe. Primeiro a uma amiga. Depois a outra mulher. Foi essa terceira mulher quem decidiu criá-lo. Não houve processo judicial, não houve registro de adoção, não houve cartório que documentasse aquela decisão. Houve apenas um gesto antigo e silencioso que atravessa gerações no Brasil: dar um filho para alguém criar.
Durante décadas, situações como essa foram comuns em comunidades populares de cidades como Salvador e em muitos municípios do interior da Bahia. Em contextos de vulnerabilidade, redes informais de cuidado surgiam entre mulheres — madrinhas, vizinhas, amigas e parentes — formando aquilo que muitos chamam até hoje de filho de criação.
A história social brasileira registra práticas semelhantes desde o período colonial. Instituições como a Santa Casa de Misericórdia da Bahia mantinham sistemas como a Roda dos Expostos, onde bebês eram deixados anonimamente para serem acolhidos. Mas fora dessas instituições existia algo ainda mais frequente: crianças que circulavam entre famílias, cuidadas por mulheres que assumiam responsabilidades que o Estado nunca assumiu.
No caso que inspira esta coluna, a mulher que criou o menino repete uma frase que ecoa em muitas casas brasileiras: “Parir é diferente de ser mãe.” Para ela, maternidade épresença, cuidado e responsabilidade cotidiana. É quem fica quando todos os outros vão embora.
Mas essa história carrega um detalhe que torna tudo ainda mais doloroso. Segundo relatos das conversas entre os adultos envolvidos, a mãe biológica — que um dia entregou o bebê — teria pedido à mulher que o criou que negasse publicamente sua existência. Que dissesse que aquela criança não era seu filho. Que apagasse qualquer referência à mulher que o gerou.
Como se o passado pudesse simplesmente desaparecer. Mas histórias não desaparecem. Elas permanecem guardadas até o dia em que alguém decide contar.
Nesse caso, a verdade chegou quando o jovem tinha dezesseis anos. Descobrir que a mulher que o criou não é sua mãe biológica pode provocar um abalo profundo na construção da identidade. Psicólogos explicam que revelações tardias sobre origem familiar podem gerar sentimentos de rejeição, confusão emocional e questionamentos sobre pertencimento.
Ao mesmo tempo, a mãe que o criou enfrenta outro tipo de angústia: o medo de que o vínculo construído ao longo de toda uma vida seja colocado em dúvida.
Ao redor dessa família existe ainda o julgamento da comunidade — comentários, olhares, interpretações apressadas que transformam uma história íntima em assunto público. Quando isso acontece, o impacto recai sobretudo sobre quem menos deveria carregar esse peso: o jovem que tenta compreender sua própria origem.
Situações como essa também levantam questões legais. A legislação brasileira determina que processos de adoção devem ocorrer por meio da Justiça, garantindo direitos e proteção à criança. Entregas informais podem configurar irregularidades previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, quem conhece a realidade social do país sabe que muitas dessas decisões foram tomadas em contextos onde simplesmente não havia orientação, assistência ou apoio do Estado.
No fim, permanece uma pergunta que atravessa gerações: quem é, de fato, a mãe de um filho?
A que gera? A que cria? Ou a que tem coragem de reconhecer a própria história?
Talvez a resposta esteja na experiência de muitas famílias brasileiras: algumas crianças nascem uma vez no corpo de uma mulher — mas aprendem a viver no cuidado de outras.












